Crise financeira

A seguir, algumas informações sobre a crise financeira extraído da Revista Época desta semana.
A matéria contém em destaque 38 perguntas e respostas que revelam o tamanho do estrago. Dessas 38, transcrevo as 10 primeiras que dá uma idéia exata de mais essa "bomba" que temos de segurar, e se possível, manter o sorriso...afinal, somos brasileiros.
1. Como a crise começou? Desde o século XVII, todas as crises financeiras são precedidas por bolhas. Desta vez, a bolha de crédito começou a se formar em 2001, depois da crise das empresas de internet. Sob Alan Greenspan, num período de 24 meses o Federal Reserve, banco central americano, derrubou a taxa de juros de 6% ao ano para 1% ao ano, para estimular a economia. Esse dinheiro fácil inundou o mercado, fez dobrar o valor das moradias e estimulou as empresas a emprestar sem critérios e sem garantias, com base em inovações do mercado financeiro. Wall Street aprendeu a empacotar hipotecas e outros débitos dos consumidores em títulos vendidos no mercado financeiro como papéis de primeira linha. Essa ficção financeira movimentou US$ 1,5 trilhão e ajudou os bancos de investimento a movimentar muito mais dinheiro do que poderiam em circunstâncias normais. Quando o preço das casas começou a cair e os endividados deixaram de pagar as prestações dos imóveis, tudo ruiu. As instituições financeiras com carteiras podres começaram a quebrar em abril de 2007 e não pararam mais. De lá para cá, o mercado tenta, sem sucesso, avaliar o tamanho do rombo coletivo e decidir quem é digno de confiança. Essa interrogação paralisou o mercado mundial de crédito e transformou a crise financeira americana numa crise da economia real.
2. Por que ela é tão grave? Porque atingiu em cheio o coração do sistema financeiro, cada vez mais central no capitalismo. Sem o fluxo normal de crédito, a máquina da economia global fica asfixiada. “Tudo depende de crédito e confiança no sistema financeiro. Neste momento não vejo nem crédito nem confiança”, disse a ÉPOCA o economista americano Thomas Trebat, da Universidade Colúmbia, de Nova York. A revista The Economist compara o sistema financeiro ao encanamento de um edifício. Quando ele funciona, ninguém percebe. Quando entope, o mau cheiro é insuportável. Esta é a situação atual: o sistema parou, mesmo com os governos dos Estados Unidos, da Europa e do Japão injetando US$ 1,4 trilhão na tubulação. O custo dos empréstimos entre os bancos cresceu 16 vezes nos últimos 18 meses, porque as instituições financeiras não confiam uma nas outras e preferem ter dinheiro em caixa. Se os bancos não emprestam dinheiro entre si, também não emprestam para as indústrias, para os serviços e para os consumidores. “É seguro dizer que, enquanto os mercados financeiros não funcionarem normalmente, a crise financeira não vai terminar”, diz a Economist. “Até que a crise financeira acabe, a economia global não vai se recuperar”.
3. Qual é o tamanho da crise? Em agosto de 2007, quando o Fed foi obrigado a injetar US$ 64 bilhões no mercado financeiro americano para desfazer o gargalo de confiança que paralisava os empréstimos entre os bancos, percebeu-se que a crise hipotecária tomara uma proporção dramática. Deste então se tenta dimensioná-la. O Fundo Monetário Internacional falou de imediato em custos de US$ 1,5 trilhão. O que então parecia um exagero hoje parece uma avaliação otimista. Só o governo americano já empenhou US$ 1,58 trilhão para tentar conter o desastre. E pode não ser suficiente. Calcula-se que a crise tenha pulverizado US$ 17 trilhões das Bolsas de Valores no mundo todo até a semana passada. É muito dinheiro – equivale a aproximadamente 13 vezes a economia brasileira e é mais do que a dos Estados Unidos e a do Japão juntos.
Essa é uma medida do problema. Outra, menos abstrata, é que já faliram 13 bancos neste ano nos Estados Unidos. Desapareceu um setor inteiro do mercado financeiro – os centenários bancos de investimento –, tragado por dívidas e incertezas. Se tivesse parado por aí, a crise já seria histórica. Mas ela foi além: secou o mercado de crédito mundial, derrubou o consumo nos Estados Unidos e congelou planos de investimento em todos os países. A economia global travou.
Empresas como Ford, Toyota e Honda enfrentam quedas de venda da ordem de 30% nos Estados Unidos. A General Electric não consegue rolar sua dívida de US$ 90 bilhões. Foi obrigada a pedir uma injeção de capital de US$ 3 bilhões ao investidor Warren Buffett. A Microsoft estava no Congresso americano na semana passada fazendo lobby pró-pacote, porque via que seus clientes no mercado financeiro estavam sumindo. Além de multissetorial, a crise é internacional. A Europa está socorrendo seus bancos na Inglaterra, na Irlanda e na Bélgica e se prepara para enfrentar uma forte desaceleração da economia. A China cortou a taxa de juros pela primeira vez em cinco anos para manter seu espetacular crescimento. O preço das commodities desabou, com a expectativa de recessão. O financiamento internacional às exportações desapareceu, ameaçando o comércio internacional e o equilíbrio financeiro de países emergentes como o Brasil.
4. Qual será seu custo? A conta final para a economia planetária poderá chegar a astronômicos US$ 4,5 trilhões, ou quase 8% do PIB global. Os primeiros a perder são os sistemas bancários americano e europeus. Eles podem ver desaparecer US$ 3 trilhões, se forem contabilizados a redução das linhas de crédito das montadoras, o colapso dos cartões de crédito, a redução de crédito entre os bancos e outros prejuízos não precificados. Também perderão os bancos centrais com títulos dolarizados, basicamente China, Hong Kong e Japão. Como a aprovação do pacote econômico de emergência significará um aumento do déficit fiscal americano, estudos prevêem uma possível desvalorização do dólar. Esses bancos centrais deverão amargar, assim, um prejuízo de US$ 500 bilhões nos títulos referenciados em dólares. Some-se a isso o pacote aprovado pelos Estados Unidos, num total de US$ 850 bilhões – conta que será paga pelos contribuintes –, e chega-se à absurda soma de US$ 4,35 trilhões, o custo estimado da turbulência. Detalhe: ele não leva em conta os prejuízos decorrentes das perdas de empregos, vendas, encomendas, exportações, enfim, da freada que a economia mundial poderá sofrer em virtude desse caos.
5. Faz sentido comparar esta crise com a de 1929? Medida pelas suas conseqüências até o momento, a crise hipotecária não faz sombra aos eventos da década de 30. A Grande Depressão quebrou 1.800 bancos nos Estados Unidos, derrubou em 20% o PIB das sete maiores economias do mundo, provocou desemprego de até 33% nos EUA e na Alemanha e fez o comércio mundial encolher em dois terços. A crise de 29 foi uma tragédia social e econômica sem paralelo.
Hoje, o cenário é outro. Os governos dos EUA e da União Européia estão agindo com rapidez e energia para debelar a crise financeira. Há disposição em evitar que ela se transforme em crise social. Calcula-se que, desde julho de 2007, o governo dos EUA já tenha lançado US$ 2 trilhões na economia, na tentativa de evitar que ela mergulhe em depressão. Em 29, a primeira medida do governo americano para aumentar a liquidez veio três anos depois da explosão da Bolsa.
Mesmo assim, há semelhanças. A crise atual começou nos EUA e está se espalhando. Surgiu como crise financeira localizada e ganhou a economia real. Parecia controlável com interferências pontuais do governo, mas já engoliu montanhas de dinheiro sem dar sinal de arrefecer. É possível que o mundo esteja presenciando o início de algo maior. O ajuste no mercado financeiro pode fugir ao controle, ferindo o sistema bancário e as empresas que dele dependem. Se essa engrenagem de destruição de valor entrar em movimento, estará montado o cenário para o que a revista Time chamou de Depressão 2.0 – uma crise em escala global capaz de rivalizar com a hecatombe dos anos 30.
6. Quanto tempo ela vai durar? O estrangulamento de crédito no mercado internacional e a falta de confiança entre bancos podem ser atenuados em poucas semanas. “Isso acontecerá se o pacote americano de socorro for bem-aceito pelo mercado”, afirma o economista Fernando Sotelino, ex-presidente do Unibanco e professor da Universidade Colúmbia, de Nova York. Mas a retomada da atividade a pleno vapor levará mais tempo. “O problema vai durar no mínimo até meados do ano que vem”, diz o economista americano Nouriel Roubini (leia a entrevista). Voltar ao crescimento econômico em níveis elevados pode levar mais de um ano. Setores considerados motores da economia, como a construção civil e o automobilístico, dependem de crédito e atravessam forte desaceleração. Como os Estados Unidos são a maior economia do mundo, a diminuição do consumo de sua população provocará queda nas importações provenientes de países como China, Índia e Brasil.
7) Qual é o efeito da globalização? A globalização criou canais de comunicação entre todos os países e setores econômicos. Fez do isolamento e da blindagem uma quimera. Os países serão mais afetados quão maior for a sua conexão ao sistema financeiro americano, quão mais ampla for a abertura da sua economia e quão maior for o grau de endividamento do seu sistema financeiro. A Europa tem ligações umbilicais com Wall Strett. Em países como o Reino Unido se opera em graus elevados de endividamento. Aí a crise vai ser severa. A Ásia é dependente do mercado de consumo americano. O sistema financeiro de alguns países – como o Japão – funciona em íntima sintonia com Nova York, mas com grau de endividamento menor. A crise será menos intensa. No mundo emergente, misturam-se realidades distintas. A China está perigosamente vinculada ao mercado financeiro americano: um quinto das reservas do país está em títulos dos gigantes falidos das hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac. Nenhum país tem tanto a perder com um eventual colapso do mercado financeiro. Na América Latina, países como o Brasil vão sofrer com a falta de crédito e o encolhimento do mercado de commodities.
Para ter uma idéia da extensão da atual crise financeira, já “evaporaram” do mercado acionário global cerca de US$ 12 trilhões do fim de 2007 até o fim de agosto, último dado oficial disponível, segundo a Federação Mundial de Bolsas de Valores. Nesse período, o valor de mercado de todas as ações negociadas no mundo caiu de US$ 61 trilhões para US$ 49 trilhões. Em setembro, é provável que outros US$ 4 trilhões ou US$ 5 trilhões tenham virado pó nos pregões em todo o planeta. É o equivalente a mais de duas vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, de R$ 1,9 trilhão em 2007.
8. Qual será o efeito no Brasil? O comércio internacional deverá perder vigor e nenhum país ficará livre de sofrer algum impacto no ano que vem. “Nos últimos anos, o Brasil foi muito favorecido pelo forte crescimento da economia mundial”, diz o economista José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central. “É evidente que, se a economia mundial piorar, a situação por aqui vai piorar também”. No começo, os problemas estiveram confinados ao campo financeiro, castigando principalmente quem investe em ações. Nas últimas semanas, a crise começou a contagiar o setor produtivo, atingindo duas das principais alavancas do crescimento brasileiro: as exportações e o crédito externo. Com a crise, tanto as exportações quanto o crédito encolherão. Para amenizar a situação, nos últimos dias o governo adotou algumas medidas. Liberou R$ 5 bilhões para financiar os agricultores. O Banco Central injetou mais de R$ 36 bilhões na economia para ajudar bancos pequenos e médios que antes buscavam crédito barato no exterior. “A janela externa para eles fechou”, afirma o economista Alexandre Póvoa, da Modal Asset Management.
9. Haverá muito estrago? Neste momento, ninguém sabe dizer. Todos os analistas afirmam que, ao contrário do que pode acontecer com outros países, o Brasil não deverá passar por uma recessão. Haverá, sim, uma freada no ritmo de crescimento da economia. Depois de avançar algo em torno de 5% neste ano, o crescimento econômico deverá sofrer uma desaceleração e ficar em torno de 3% no ano que vem.
10. Por que o Brasil está mais protegido hoje? A economia brasileira hoje é mais sólida do que até poucos anos atrás. A maior parte da expansão do PIB brasileiro vem do mercado interno. Apenas cerca de 15% vêm das exportações, área mais afetada pela crise. “O Brasil é muito voltado para o mercado interno”, afirma o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central. “Isso torna o país menos sensível aos efeitos desta crise”. A confiança do investidor estrangeiro no Brasil, que sempre causou instabilidade, não é mais um problema grave. O país tem US$ 206 bilhões em reservas, volume suficiente para pagar suas dívidas. “Não vai haver desconfiança sobre a capacidade do Brasil de pagar algum débito”, diz Goldfajn. “Nas crises anteriores, as reservas do Brasil equivaliam a lutar com uma espingarda. Agora, o Brasil tem uma metralhadora M-16”, afirma um economista de um dos maiores bancos do país. Além de ter como pagar, o Brasil deve menos. Anos atrás, crises como essa provocavam uma disparada no preço do dólar e da dívida. Hoje, a dívida em dólar não só está zerada, como o Brasil mudou de lado – é credor em dólares. “Em outros tempos, a esta hora o Brasil estaria um pandemônio”, diz um economista.

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