O candidato

– Você é candidato, não é mesmo?
– Não, de modo algum, isso não é para mim.
– Por que não?
– Não tenho nada para dizer.
– Por isso mesmo.
– Não tenho um projeto.
– Melhor ainda.
– Como iria convencer os eleitores a votar em mim?
– Sendo sincero.
– Dizendo toda a verdade?
– Claro que não. Ninguém suporta toda a verdade.
– Dizendo o que então?
– Que você é como todo mundo.
– Como assim?
– Ora, você me entende, não?
– Acho que não.
– Mas é simples. Diga que precisa ser eleito.
– Para quê?
– Para representar os eleitores.
– Certo, isso parece o óbvio, não? Qual seria, digamos assim, a minha diferença em relação aos outros?
– Justamente isso.
– Isso o quê?
– Não ter diferença.
– Qual a vantagem disso?
– O importante é ser como todo mundo.
– Por quê?
– O eleitor vota por identificação.
– Não sei se estou estendendo.
- Mais uma razão para ser candidato.
– Você está sendo cínico?
– Não. Estou sendo realista.
– Ah, bom! Qual a diferença?
– Realista é um cínico que sabe ser político.
– Um enganador?
– De modo algum. Alguém que sabe usar as palavras.
– Não gostaria de iludir as pessoas.
– Tem algo contra elas?
– Está dizendo que o eleitor é burro?
– Ao contrário.
– É cínico?
– Realista.
– Se todos são iguais, por que escolher este e não aquele? Enfim, por que eles me escolheriam?
– Precisam escolher alguém.
- Existem critérios de escolha.
– Claro. O eleitor quer votar em alguém como ele.
– Não posso crer que o eleitor seja um inocente útil.
– Não?
– O eleitor é inteligente e cada vez mais bem informado.
– Viu? Eu não disse?
– Disse o quê?
– Que você tem tudo para ser candidato.
– Que foi que eu disse?
- O que todo candidato diz.

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