Os professores e a governadora

Juremir Machado da Silva
Um dos maiores paradoxos da sociedade atual é o da educação. Todo mundo diz que conhecimento é tudo, mas os professores do ensino básico público ganham muito pouco. Qualquer jogador de futebol perna-de-pau e quase analfabeto, em começo de carreira, ganha mais. As famílias de hoje sonham que os filhos entrem para a escolinha (de futebol). A velha escola paga mal e leva a profissões sem o mesmo charme. A aprovação de um piso salarial de R$ 950,00 por 40 horas de trabalho para o magistério em todo o país surgiu como uma novidade revolucionária. A governadora do Rio Grande do Sul, professora universitária, acha que o Estado não pode arcar com tamanha despesa sob pena de quebrar. Que continuem, portanto, quebrados os professores. A sociedade quer bom ensino, desde que custe bem baratinho.Vamos falar sério: R$ 950,00 é um salário muito baixo, ainda mais para quem deve ser mestre dos homens e das mulheres que marcarão o futuro da nossa sociedade. O problema dos professores, pelo jeito, é que eles são muitos. Daí que o pouco ganho individualmente se transforma em muito quando multiplicado pelo quadro inteiro. Já a governadora não tem esse problema. Ela é única. Pode receber 143% de aumento de salário sem quebrar as finanças do Estado. Passar o salário de um governador de R$ 7 mil para R$ 17 mil nem chega a ser um absurdo. Feitas as contas, R$ 17 mil é uma remuneração justa para exercer o cargo mais importante de uma unidade da Nação, mesmo que, em geral, ninguém se lembre das realizações de um governador, salvo dos estragos causados, das polêmicas, das acusações de corrupção e do marasmo. Há, contudo, uma questão simbólica incontornável. Enquanto os professores vivem com quase nada, embora dando muito à sociedade, os políticos sempre encontram um jeitinho de ganhar ou dar-se aumentos que não aprovariam para qualquer outra categoria.
Uma idéia dos Professores sem Fronteiras poderia ajudar a garantir o dinheiro necessário ao piso salarial de R$ 950,00 do magistério: cortar ao mínimo o número de CCs nos mais diversos níveis da administração pública. Gabinetes de vereadores, de deputados, de secretários, de ministros, de todos os poderes, vivem atrolhados de apaniguados que trabalham pouco e ganham sempre mais do que um professor. É puro empreguismo. Tem secretaria com mais de 400 CCs. Pode ser que isso tenha como lado positivo gerar empregos ou melhorar a qualidade dos perfis no Orkut de muitos desses apadrinhados em cargos de comissão. CC é um resquício do clientelismo, um fóssil das relações pessoais baseadas no toma-lá-dá-cá, uma demonstração de que a política nunca é muito séria.
Se os professores devem viver no sacrifício para melhorar a educação dos nossos filhos e não quebrar o Estado, a governadora deveria fazer o mesmo, recusando um aumento de salário que soa como um insulto junto aos que não estão autorizados a receber míseros 950 pilas por mês. O Brasil só pode ser analisado e compreendido a partir dos seus clichês. Qualquer sofisticação é perda de tempo. Os políticos não estão nem aí para os professores do magistério público, pois podem mandar seus filhos para as boas escolas privadas. Resta a questão dos votos. Mas eles acreditam piamente que isso se pode comprar com bons financiamentos de campanha feitos por empresas amigas e sem qualquer interesse em retribuição. Merenda gratuita.
juremir@correiodopovo.com.br

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