Fragorosa derrota para os Kirchner


Jurandir Soares

O kirchnerismo, que está há cinco anos no poder na Argentina, sofreu uma derrota aplastante esta semana, quando o Senado rejeitou transformar em lei um decreto que autorizava o governo a taxar as exportações de grãos em até 44%. Foi como se fosse uma decisão de campeonato por pênaltis. Empate na votação e decisão com o vice-presidente Julio Cobos, que, pela Constituição argentina, é o presidente do Senado, votando contra o governo. Cobos pertence à União Cívica Radical, tradicional adversário político do Partido Justicialista dos Kirchner. Mas foi esta esdrúxula aliança que os levou ao poder. E foi a mesma que determinou as posições antagônicas. É preciso destacar que o empate só foi conseguido em função do famoso 'toma lá, me dá cá', o que fez com que muitos senadores acompanhassem o governo, votando contra a sua consciência.
Assim consumou-se uma derrota que o kirchnerismo não esperava. Mas que chegou a tal resultado porque não soube administrar a crise. Deparava-se com o setor agropecuário, que é o principal responsável pelo crescimento do país. E, ao invés de buscar uma negociação, procurou dobrá-lo. Dimensionou mal os poderes em jogo e acabou sendo dobrado. Fragorosa derrota para o proselitismo kirchnerista.
O problema maior será daqui para a frente. Há um somatório de coisas negativas. Após seis anos de expansão acelerada do PIB, a economia dá sinais fortes de desaquecimento. Os quatro meses de paralisação do setor rural desarticularam a produção. Com seu poder hegemônico, o casal Kirchner controlava o Congresso, o Judiciário e o mundo empresarial. Com esta derrota, perdeu tudo. Conforme o analista Joaquim Morales Solá, do jornal La Nación, os ruralistas puseram fim a essa forma de governar.
Nessa forma de governar está o jeito de mascarar a inflação, que o governo insiste em dizer que é de 8%, quando todos os organismos de pesquisas apontam em 30%. Todos os países estão enfrentando a alta dos preços por conta da elevação da cotação internacional dos alimentos e dos combustíveis. Como na Argentina a inflação é maquiada, isso se torna pior. Quanto à energia, se não é o socorro do Brasil, o país fica na pior. E depende ainda do gás de Evo Morales. E acrescente-se ainda o fato de que o país é, dentro do contexto latino-americano, um dos que menos recebe investimentos estrangeiros, por causa do calote que Kirchner aplicou nos credores. Assim, é sob esse prisma que Cristina terá que governar mais três anos e meio.
fonte: Correio do povo, 20/jul/08 pág 3

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