As Algemas e os ricos


Rodrigo Constantino

“Não roube! O governo detesta competição.” (Autor desconhecido)

O Ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que “se fizerem uma lei que determine que pobres sejam presos com algemas e ricos não”, a polícia seguirá esta regra. Os comentários do ministro deixaram ainda mais evidente que a prisão do banqueiro Daniel Dantas, filmada pela maior rede de televisão do país, que chegou junto com a Polícia Federal para presenciar o ato, tinha como um dos objetivos passar a imagem de que este governo também prende ricos empresários. O governo do PT tenta explorar um ranço marxista infelizmente ainda dominante no povo, que inveja os mais ricos e os enxerga como exploradores dos pobres.

Está sendo ignorado o verdadeiro propósito do uso de algemas durante prisões, que depende basicamente da periculosidade do alvo, do risco que este representa para a segurança iminente das pessoas. Ricos já são presos com o uso de algemas, quando necessário. Ou o ministro esquece que Fernandinho Beira-Mar é podre de rico? O parceiro das FARC, grupo terrorista que o ministro tem afinidades ideológicas, é um traficante milionário. E foi preso com o uso de algemas. Mas nesse caso fazia todo sentido lógico, pela ameaça que o bandido representa. Em contrapartida, não é todo pobre que deve ser preso com algemas. O uso das algemas, para resumir, não deve ter ligação alguma com a conta bancária do alvo, e sim com o risco que este representa para os cidadãos e policiais.

Quando um empresário acusado de corrupção possui residência fixa, um negócio de bilhões estabelecido no país e com endereço certo, e ainda responde a vários processos em andamento, não há necessidade de colocar algemas nele durante a prisão. Basta convidá-lo a acompanhar os policiais até a delegacia, que ele com certeza o fará, sem o risco de sacar uma arma e alvejar os policiais numa tentativa de fuga. Logo, fica claro que o uso das algemas, devidamente fotografadas pela mídia que fora avisada da operação com antecedência, tinha o intuito apenas de mexer com as emoções dos invejosos, que desejam ver empresários ricos na cadeia, independente da culpa ou não. O julgamento já foi feito antes, pela ideologia marxista.

Resta perguntar ao ministro Tarso Genro se todos os petistas envolvidos em escândalos infindáveis, seus companheiros de partido, serão presos também, em primeiro lugar, e se a mídia estará lá na hora, para filmar todos saindo com algemas nos punhos. Por onde andam Waldomiro Diniz, Delúbio Soares, José Dirceu, Marcos Valério, Duda Mendonça, José Genuíno, o assessor de seu irmão (o homem da cueca com dólares) e tantos outros “camaradas” envolvidos em vários crimes, inclusive formação de quadrilha? Nessa lista, temos inclusive um réu confesso de um dos crimes pelos quais Daniel Dantas foi parar na cadeia. Mas talvez por ser o “marqueteiro” do presidente Lula, ele não tenha sido preso com algemas filmadas pela televisão, ou nem sequer preso! Aliás, há algum petista preso? Algum envolvido no “mensalão” foi parar no xilindró?

Em vez de vibrar com a prisão espetacular de empresários ricos, o povo deveria pressionar pela prisão dos criminosos de forma geral, ricos ou pobres, e principalmente dos grandes corruptos do meio político. Estes estão todos soltos, rindo da cara dos otários pagadores de impostos. O uso de dois pesos e duas medidas acende um alerta grave de uso político da polícia, e qualquer um que preza pela liberdade deve condenar isso. Não custa lembrar que a polícia e o governo fizeram de tudo para ocultar da mídia a foto com a montanha de dinheiro apreendida com os “aloprados” petistas, para a compra de dossiê contra os tucanos. Já a foto do dinheiro usado como propina a mando de Daniel Dantas foi logo parar nas primeiras páginas dos jornais. É no próprio governo que estão os maiores criminosos do país, e todos desfrutam de privilégios e gozam de total impunidade.

Marx falava de uma luta de classes entre capital e trabalho. A verdadeira luta de classes atual ocorre entre pagadores e consumidores de impostos. É espantoso ver que o foco do povo se volta todo contra os empresários corruptores, ignorando que a principal causa de corrupção está no excessivo poder do governo na economia. Enquanto um carimbo do governo decidir o rumo de um setor inteiro, enquanto uma assinatura do presidente selar o destino das empresas, claro que os empresários vão criar grupos de interesse para comprar, através de “lobistas”, os políticos poderosos. Basta lembrar do setor de telecomunicações, onde a assinatura do presidente Lula alterou a lei e permitiu a compra da Brasil Telecom pela Telemar, depois que o filho de Lula vendeu seu “negócio” para a empresa e ficou milionário da noite para o dia. Devemos ter em mente que, para sobreviver até, muitos empresários precisam pagar por fora fiscais corruptos. Se todos seguissem todas as leis excessivas e absurdas desse manicômio legal chamado Brasil, o país já estava quebrado faz tempo!

Todos que já deram algum suborno para policiais que tentavam achacar com base em alguma lei estúpida, como esta nova que impede o motorista de tomar uma única taça de vinho, sabem do que estou falando. Todos que já trouxeram alguns produtos do exterior sem declarar, porque o governo resolve impedir a livre importação cobrando impostos extorsivos, sabem do que estou falando. Todos que já trabalharam ou contrataram trabalhadores sem assinar carteira, pois os encargos são proibitivos, sabem do que estou falando. Todos que já compraram algo em um camelô ou de um sacoleiro, sabem do que estou falando. Todos que já mandaram dinheiro para o exterior para fugir de confiscos criminosos feitos pelo próprio governo, sabem do que estou falando. Enfim, os exemplos são infindáveis, pois quando as leis são absurdas, a única solução muitas vezes é cair na “informalidade”, eufemismo para ilegalidade. Devemos boa parte de nossa riqueza a este ar rarefeito que somos muitas vezes forçados a respirar pela burocracia asfixiante. O “pai fundador” dos Estados Unidos, autor da famosa Declaração de Independência, Thomas Jefferson, chegou a afirmar: “Se uma lei é injusta, um homem está não apenas certo em desobedecê-la, ele é obrigado a fazê-lo”. Claro que o império da lei deveria ser o foco de todo liberal. Mas não qualquer lei, e sim as leis básicas, isonômicas, que buscam justamente preservar as liberdades individuais. Os “crimes” citados acima não possuem vítimas. São indivíduos fugindo do crime legal praticado pelo próprio governo. Isso é ilegal, mas muitas vezes legítimo. Ou alguém acha que um guarda nazista estaria agindo de forma correta e legítima ao obedecer as leis que mandavam exterminar judeus?

Vamos lutar pelo fim da impunidade no país, mas também pela drástica redução de leis e do poder arbitrário do governo, o maior criminoso de todos. A legalidade não torna o roubo estatal legítimo. E o uso político da polícia representa uma das maiores ameaças à liberdade. A declaração de um Ministro da Justiça instigando o ódio entre ricos e pobres, com o uso simbólico e desnecessário das algemas, acende uma luz amarela. Eu ficaria um pouco mais tranqüilo se essas mesmas algemas tivessem sido usadas em todos os petistas acusados de vários crimes ou pegos em flagrante, e filmadas pela mídia. Como nada disso chegou perto de ocorrer, mesmo com confissões e provas concretas, tenho calafrios quando a reação do povo é aplaudir o uso de algemas na prisão de “ricos”, porque são ricos!

rodrigoconstantino.blogspot.com

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