Eu sou "estressado"



O desafio de atrair e manter jovens talentos

A nova geração de funcionários criativos encara o trabalho como um videogame.
Por Ricardo Neves - Revista Época
Até bem pouco tempo atrás, na maioria das empresas, o diretor de recursos humanos (RH) era aquele boa-praça responsável pela divisão que fazia recrutamento e seleção, que cuidava da folha de pagamentos e que de tempos em tempos tinha de sentar com os sindicalistas para negociar dissídios para evitar que ocorressem paradas indesejáveis na produção. Era o RH também que organizava eventos engraçados para elevar o moral da empresa. Naqueles tempos, a diretoria de RH era quase um departamento de importância secundária. Afinal, os grandes responsáveis pelo resultado da empresa eram diretores industriais, financeiros e de marketing.
Mas o século XXI trouxe para as empresas o desafio de inovar ou ficar irrelevante. Isso fez com que a necessidade de atrair talentos inovadores e mantê-los passasse a ser questão de sobrevivência. Um time de bons empregados, que faz tudo certinho, mas sempre mais do mesmo, vai, cedo ou tarde, virar um grupo de perdedores. Isso elevou extraordinariamente o nível de responsabilidade do diretor de RH. Agora, é missão dele atrair e reter os criativos.
A pressão por resultados está cada vez mais forte em cima do RH. Outro dia, ouvi um diretor de RH se lamuriar. “Temos de lidar simultaneamente com três gerações de expectativas muito diversas dentro de uma mesma empresa”, disse ele. “Todas vivem um grande sentimento de descontentamento e frustração.” Ele batizou essas três gerações de “os cansados”, “os estressados” e “os jogadores”. Quem são eles?

Os cansados são a geração mais madura, com mais de 45 anos. Estão saturados da frenética evolução tecnológica, da globalização e da competição encarniçada. Apesar de estarem no auge de sua vida produtiva, não conseguem acompanhar o ritmo do trabalho, como esportistas que ficaram obesos. Em várias empresas estatais, a questão se agrava, pois o mérito para alcançar promoções e bônus foi substituído pela indicação política ou partidária. Como contam com a estabilidade praticamente incondicional, boa parte deles espera completar o tempo de se aposentar. Com essa geração, fale em inovação e espere encontrar cinismo.

A geração intermediária é a dos estressados. Trintões e quarentões que parecem esquilos correndo dentro de gaiola. Fazem cursos e procuram se reciclar. Apesar de tudo, sentem-se inseguros, sobrecarregados e infelizes. Seu dia-a-dia é quase todo ocupado com rotinas operacionais. Nesse contexto, falar em inovação, em alimentar a criatividade, é humanamente impossível. Faça isso e vai encontrar uma atitude de ceticismo.


Já a geração que chega traz uma realidade nova na história do trabalho. Essa turma passou da adolescência para o começo da idade adulta experimentando as ferramentas digitais. Cresceu com a internet. Eles são capazes de realizar simultaneamente diversas tarefas, como os adolescentes que ouvem música, navegam na internet, atendem telefone e falam ao mesmo tempo através do MSN com uma dúzia de colegas. Trabalho para eles tem muito mais a ver com game. São os jogadores.

Essa turma é potencialmente a parte mais criativa. No entanto, as empresas, de maneira geral, frustram e espantam suas melhores promessas porque não conseguem montar um ambiente de realização e estímulo permanente no trabalho. Os jogadores esperam missões, desafios e recompensas. Querem logo passar para o próximo nível de dificuldade do jogo, como em um game de computador. Não espere mantê-los na empresa só pela promessa da estabilidade, como as antigas gerações. Os mais criativos são os mais difíceis de reter. Esses costumam criar suas regras. São eles que dão “game over” para a empresa e partem para outros desafios.

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