Ainda somos racistas?

De tudo que li sobre o 20 de novembro, fico com a coluna do Juremir Machado da Silva do Correio do Povo de hoje a qual, reproduzo abaixo:



AINDA SOMOS RACISTAS?



Hoje é o Dia da Consciência Negra. Eu ainda me espanto com o pequeno número de negros em nossas universidades gaúchas. Somos racistas? Detestamos admitir isso e até juramos o contrário. Mas a realidade não confirma os nossos desejos.

Quando eu era criança, em Santana do Livramento, o racismo era um dado incontestável. Livramento, com certeza, não era diferente de outras cidades do Rio Grande do Sul. Havia os clubes sociais de brancos – onde 'preto' não entrava, salvo se fosse um 'importante', por exemplo, os oficiais do Exército, que conheciam a lei e não se intimidavam, um médico ou um advogado – e um clube dos negros, conhecido como 'clube dos morenos'.

O uso de eufemismos preconceituosos era um traço muito peculiar desse racismo que tentava ser dissimulado, mas era ostensivo. Não se dizia negro, para não ofender, mas 'moreno'. Ao menor conflito, porém, apareciam termos como 'negão', 'crioulo' e outros rótulos de desqualificação.

Nos bailes da campanha, então, negro não chegava nem perto da porta do salão. Um dos maiores organizadores de bailes gaúchos de Palomas, índio velho sem papas na língua, rejeitava no seu galpão barbudo, negro e 'frescos'. Aos primeiros, oferecia o material necessário para se 'afeitar'. Os demais eram convidados a se retirar. Se insistissem, eram expulsos no 'tranco'. Pai algum queria ver a filha branca casada com um negro. Eram comuns expressões como 'preto de alma branca' ou 'preto, mas de confiança'. A minha família morou, durante alguns anos, num beco habitado por muitos negros. Havia sempre muitos guris negros lá em casa. No colégio, volta e meia alguém nos ofendia dizendo que vivíamos amontoados com uma 'negrada'. Falando assim, tão rudemente, vai parecer que estou querendo transformar Santana do Livramento numa cidade racista daquelas que existiram no Sul dos Estados Unidos.

É verdade que os negros das estâncias de Livramento, peões para trabalho duro, jamais se atreveriam a chegar perto das filhas brancas e mimadas dos fazendeiros, as quais, não raras vezes, deixavam escapar suspiros ou lânguidos gemidos quando um negro de braços robustos passava silencioso. Ao longo dos meus anos de estudante em minha cidade natal, em três escolas, lembro-me de ter tido dois colegas negros, o Joãozinho, que me surrava sempre que eu o provocava, e o Rudilvan, o melhor meio-campista que vi jogar, sem contar o Falcão e o Zico. Ignoro se chegaram a fazer um curso superior. É por isso que sou favorável ao regime de cotas para as universidades.

Como estudante universitário, tive um número maior de colegas negros: três no Jornalismo – Adão, Wilma e Trindade – e um em História, o Eusébio, um aguerrido militante de esquerda. No Brasil, ser pobre, valha a redundância, é terrível. Ser pobre e negro é muito pior. Faz tempo que não vou a um baile no Interior. Não sei se as coisas mudaram. Algo me diz que não deve ser muito diferente. Entre nós, tudo é confuso em nome do deixa assim mesmo que está muito bom. Somos capazes de aceitar com certa tranqüilidade um governador negro – talvez por não acreditarmos no Estado, visto como algo a ser explorado ou insultado –, mas um negro na família ainda causa estresse em muita gente 'boa' e 'evoluída'. Não é por acaso que ainda serve de tema de novela.

No fundo, continuamos achando que negro só é bom para jogar futebol.


juremir@correiodopovo.com.br

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